Desenho e fotografia: Fernanda Manéa
"Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos
É que vossa alma arriscou pouco ou quase nada.
Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,
Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;
É o tédio! - O olhar esquívo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado,
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!"
Charles Baudelaire
As Flores do Mal
(Tradução Ivan Junqueira)